terça-feira, 20 de outubro de 2009

Lavadeira


Tarde para encontrar um amor daqueles. Cedo para chorar demais. Nem bichos, nem plantas, mas uma imprescindível planilha de contas para o dinheiro durar. Naquela terceira gaveta do criado-mudo emprestado, que ficava no único quarto da casa, um pedaço de nuvem morava na caixa de madeira. Mostrava o que não era impossível. Aquela bola de ar passeava entre seus dedos e era a sua chance de sobreviver. Escapava de acordar e dormir.
Acorda, café, jornal, bom dia, trabalho, almoço, boa tarde, trabalho, janta, boa noite, sono. E então o pedaço de nuvem dizia: “Veja Joana, aquele passarinho tem uma mancha branca nas costas e prefere andar a correr”.
Imagem: Magritte, Deuso meu, que também gostava de nuvens.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Roseira


Faz tempo que a gente cultiva
a mais linda roseira que há,
mas eis que chega a roda viva
e carrega a Rosana pra lá



E ela lá sabia de onde vinha a pancada? Sentia a dor, isso sim, mas o resto era explicação demais. Heitor deixou a porta entreaberta e era possível ver metade. O corpo então se estica na cama, o pé tenta uma ponta, o braço empurra a parede e todo esforço é valido para que aquilo se feche. Chega de metade, rezou ela a noite, de joelhos, em frente ao nada.

O que não era dor era um bololô de coisas indecifráveis. Tinha aquela ânsia em duplo sentido, de vomitar os nós e de ansiar o novo. Não era tristeza, dessa vez, não era tristeza. Era dor. Na cabeça até parecia que tudo caminhava bem, resgate da fé, tentativas de estudo, esperanças de um trabalho novo, amor. Dessa vez não era na mente, era no estômago. Era aquela vontade de fechar algumas portas, abrir outras, mas, pelo menos por um tempo, dispensar as entreabertas. Heitor sabia disso.

Acende a vela. Apaga. Acende a vela. Apaga. Acende a vela. Apaga. Acende a vela. Apaga. Acende a vela e apaga, pelo amor de Deus, ela não pode derreter. Quem deve desmanchar são as mágoas e não os magoados.
Imagem: Nem sempre Roseira é rosa. Girassóis, de Van Gogh

terça-feira, 9 de junho de 2009


Mas aquela porta escura estava descascada. Um buraco de transparência dava ao meu olhar um passar de pernas distintas. Ela estava fechada, porém aberta no pequeno descuido. Talvez tenha sido o tempo o causador daquele defeito ou um material vulgar e barato. Ou quem sabe ainda, a culpa seja de uma daquelas pessoas que guardam um vandalismo adolescente, ou de um desconstrutor. O que penso é ter um filme em duas nuances ali na porta fechada com pernas que passam escuras pela maior parte da porta e coloridas naquele pedaço transparente. Quem deseja ser porta deveria desejar também ter um pequeno erro. Uma porta certa, perfeita, encaixada cai no risco de se fechar em mofo. O defeito, veja bem, permite a variação. Quem quiser ser constante, que seja porta reta e conservada. Serei, por vezes, alimento de cupins.
Obra: Roda de bicicleta, 1913, de Marcel Duchamp, um grande provocador. A idéia também é arte.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Branco


EPÍGRAFE


Fábula era filha da noite e do sono e irmã da história. Casou-se com o engano.


CAP I


Meu nome é Michelle Fly, tenho 27 anos e sou a personagem principal dessa história. Mas [depois da epígrafe] eu não sei mais o que fazer.


FIM?



Imagem: Magritte. Michelle gosta de surrealismo, mas ainda não encara o espelho.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Cacos de vidro


Foram dois buracos na toalha branca de renda que forra as refeições. Era brasa, mas ela não estava só. Era também raiva e seria fácil se fosse apenas isso. Era a angústia do último cigarro do terceiro maço da mesma noite que já durava três dias. Era o encontro árduo entre mim e a ilusão de um desejo que eu sempre pensei ser meu. Foi o rasgar do contrato que fiz entre o que quero de mim e o tanto que os outros esperam que eu faça. É a dor da ousadia que descobri tarde; os audaciosos também têm medo. E passa o atrevimento, hoje eu sei, resta o atrevido. Mas se fosse só isso, ainda assim, não seria tão grave. Cercando todos estes sintomas existia um muro forte, alto e cinza feito de uma única matéria-prima: a incompreensão.

Penso que posso enlouquecer a qualquer momento. Qualquer são pode, basta que a mesma cena se passe inúmeras vezes em um mesmo segundo. A cabeça fica cheia e a mandíbula pesa. Abrir a boca é mesmo uma tarefa de muitos músculos, nesse caso, debilitados. Queria chorar, vomitar, sangrar. Eu me testei e fui reprovada. Não estou tão em mim quanto antes. Não é fácil ter algumas de si. Eu me quero de volta.



Imagem: Munch expressa.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A verdade

No mundo todo da Madalena existem Luana, Nildo e Francis. Madalena tem seis olhos e é

- Alta.
- Como é exagerada!
- Generosa.

- Madalena é boa, muito boazinha.
- É besta.
- Uma ignorante.

- Tão feliz!
- Alienada.
- Muito superficial.

- Trata-se de uma vencedora!
- Egoísta, isso, sim.
- Vaidosa. Ao extremo.

- Sempre tão cuidadosa.
- Atenciosa, eu diria.
- Controladora.

- E como é forte.
- Madalena é insensível.
- Perigosa.

Seis olhos, três olhares e quantas pedras.


Imagem: É bom lembrar de Van Gohg

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O pássaro me disse




Elas riram daquele caminho porque gostavam dele. Se distribuíssem as atividades do dia pelo número de horas não haveria motivos para sorrir tanto, mas quem se importa com isso. Algumas pessoas (nossa o metrô tava cheio delas) se importam, mas elas só queriam mesmo era saber do desenho.

- Precisamos do desenho, Erre.
- Sim, sim e vamos encontrá-lo.

Era uma alegria estar na estação e era uma ainda maior atravessar a rua e ter o parque, o café e a pinacoteca.

- Gosto desse lugar, Erre. Passaríamos dias aqui, você não acha?
- Acho. Também me sinto muito bem.
- Ai, mas tem essa abelha. Ela não quer sair, Erre.
Elas tentam espantar o incômodo.
- Mas que insistente, acho que gostou de nós.
- E eu acho que achamos o moço do desenho, 2. Veja!
- Não acredito, Erre, não acredito. Estou tão feliz.

Correr em direção ao desenhista não o assustou. Ele até parecia já saber. E tava entretido, em sua tarefa de olhar e desenhar. O tal artista era como 2 e Erre, não se importava muito com as coisas que preocupam uma maioria.

- Queremos um desenho.
- Olá, meninas, como são bonitas.
- Obrigada. Você pode desenhar?
- Eu sempre desenho, assim como falo com os bichos.
- Fala?
- Sim, falo e ouço. E mandei aquela abelha ficar perto de vocês. Também pedi que ela as trouxessem até mim.
- De verdade? Mas ela nos incomoda.
Ele riu.
- Então vou pedir ao passarinho.
- Ah, sim, seria melhor.
Ele então falou com o passarinho, mas elas não conseguiram ouvir nenhuma palavra.
- O senhor pode desenhar?
- Posso, é o que sempre faço.
- E para a gente?
Ele riu novamente. Parecia mágico. Erre era mais ansiosa, mas ambas estavam sob encanto.
- Temos essas duas fotos e queremos que o senhor desenhe. Faça essas duas pessoas só que com a técnica da Literatura de Cordel. O senhor conhece?
Ele cismava em sorrir.
- Temos um cordel, Erre.
- É moço, é isso aqui.
- Faço, sim. E vocês podem aguardar ali (aponta para uma mesa afastada) e conversar bastante, vou pedir ao passarinho que escute vocês.
As meninas obedecem e andam enquanto o desenhista grita.
- Eu falo mesmo com os animais. Eles me escutam. Não duvidem, meninas, não duvidem.
Elas não queriam duvidar. Não havia no mundo história mais bonita do que aquela, e o questionamento roubaria sua existência. Foram até a mesa indicada, sentaram ao lado e viram o passarinho se achegar. Fecharam os olhos e pensaram com força para que fosse tudo a mais pura verdade e assim ficaram por um tempo.
- E é.
Gritou ele de longe já com o passarinho de volta.


(Imagem: O gato perseguindo o pássaro, de Miró. 2 não gosta de gatos, mas ama passarinhos e Erre tatuou parte desse obra no corpo. O três gostam de arte.)